Hannah Arendt, a solidão da filosofia

La Maria Aaro Reis*

Hannah Arendt, o filme da respeitada cineasta alemã Margarethe Von Trotta, de 71 anos, tem como tema o pensamento de uma filósofa. Não é sobre a filósofa como figura dramatúrgica embora a pensadora também alemã, mas de origem judia, seja um personagem rico e vigoroso.

Brilhante na sua montagem severa, e limpo na narrativa, é mais um exemplar do enxuto cinema alemão de hoje apesar de Von Trotta não viver nem trabalhar na Alemanha. Radicou-se na Itália quando terminou a Segunda Guerra Mundial, e, depois, quando se separou do diretor Volker Scholöndorf, hoje ex-marido, para viver em Paris. Foi atriz de Fassbinder e, na filmografia, Rosa de Luxemburgo e Anos de Chumbo são seus filmes mais conhecidos no Brasil.

Em Paris o filme está em cartaz desde janeiro e continua com as sessões lotadas na pequena sala do legendário cinema da rue Saint André des Arts, no Quartier Latin. Mesmo considerando os interesses intelectuais das plateias que frequentam esse estúdio, Hannah Arendt, o filme, sugere um aparente desafio para o público.

É uma surpresa fascinante. Não é tedioso e prende o interesse do espectador do começo ao fim. Não o deixa um instante.

Filme de ideias, sua narrativa não é construída com episódios nem lances imprevistos vividos pelo protagonista que percorre o tradicional caminho dramático do herói - como costuma ocorrer nos filmes de padrão americano, irremediavelmente influenciados pelo cinema produzido nos Estados Unidos.

Hannah Arendt não é uma cinebiografia. Concentra-se, numa estrutura naturalista, na Nova Iorque do fim dos anos 50/começo dos 60, onde a filósofa Arendt e o seu marido Heinrich Blücher, com quem viveu durante 35 anos, trabalharam em universidades.

No filme, Arendt, figura já famosa na época e de grande prestígio porque havia publicado o seu primeiro trabalho clássico - As origens do totalitarismo - vai a Israel contratada pela revista New Yorker para cobrir o julgamento do carrasco nazista Adolf Eichmann, sequestrado por agentes israelenses pouco antes, na Argentina, onde vivia foragido. O foco da narrativa se concentra nesse período, no ambiente e na atmosfera da cidade, nos anos 60, nas reuniões e nas discussões dos intelectuais de Manhattan, entre eles, Mary McCarthy vivida pela atriz Janet Meteer, uma das melhores coadjuvantes do cinema americano cuja personagem foi amiga da filósofa. Também nas viagens a trabalho de Hannah a Jerusalém e em poucos, discretos e funcionais flashbacks de Hannah jovem, estudante em Marburg, na Alemanha, e alguns diálogos com Martin Heidegger, seu professor e amante, além de cenas documentais de noticiários da época, em preto e branco, com o carrasco tentando se justificar.

Os jornais noticiam o julgamento de Eichmann, em 1961. A série dos cinco polêmicos artigos de Arendt provoca escândalo e indignação. Apontada como “fria, objetiva e perturbadora”, Hannah Arendt é execrada pela grande maioria dos leitores e em particular por sionistas. Ela teoriza sobre algumas desconcertantes conclusões. Uma: os grandes crimes não são obra de meia dúzia de seres humanos. Têm sucesso porque contam com a cumplicidade de milhares de pessoas vivendo num ambiente de indiferença no momento desses crimes. Outra: Eichmann seria apenas um burocrata banal, um executor de ordens que não fazia uso do dom de pensar e não distinguia entre o Bem e o Mal. Portanto, não poderia ser um monstro como era apresentado. E o pior: Arendt questiona a passividade – e até a colaboração - de muitas das vítimas do Holocausto e do vácuo da resistência de líderes de comunidades judias.

Mais tarde, estes artigos seriam publicados em livro, o célebre Eichmann em Jerusalem no qual Hannah Arendt se estende sobre um dos seus célebres conceitos até hoje volta e meia invocado e o qual defendu com persistência, resistindo a todas as pressões: a banalidade do mal.

O filme mostra a solidão da filósofa, que foi uma das mais importantes do século passado, a coerência, integridade e rigor que não a deixaram ser influenciada nem pensar de acordo e em conformidade com o espírito do tempo (outro conceito de Heidegger) e sem ideologias servindo-lhe de bengala.

“Pensar é um negócio solitário”, dizia o mestre alemão. Arendt seguiu-o ao pé da letra. A profunda solidão de Arendt é uma tônica do filme.

Uma terceira alemã contribui em definitivo para o sucesso da produção cuja equipe técnica, aliás, é noventa por cento composta de mulheres. A atriz Barbara Sukowa, de 63 anos, faz Arendt. Também ela, assim como von Trotta, nos idos da década dos 80 pertenceu ao grupo de Fassbinder com quem trabalhou na obra-prima do cineasta, o filme Berlin Alexanderplatz e no admirável Lola, uma mulher alemã. Bela mulher, recebeu diversos prêmios, em festivais, como uma atriz soberba. Nos últimos anos estava desaparecida do público, mas dedicada a uma segunda carreira como cantora de música clássica moderna e apresentadora de concertos de Schöenberg. Hoje, Sukowa vive no Brooklin.

Numa sequência do filme, na qual Hannah joga bilhar com Mary McCarthy, o espectador percebe o pedigree de grande intérprete que ela é. Com um sutil movimento de sobrancelha e um leve meio suspiro, quase imperceptível, ela responde à meia indiscrição de uma pergunta invasora do personagem da amiga sobre sua vida amorosa. Grande momento de interpretação dramática.

E o seu trabalho apaixonado, na sequência final do filme, na qual Arendt dá a sua aula, na faculdade, numa sala superlotada de fieis alunos e onde estão meia dúzia de contrariados líderes judeus acadêmicos, defendendo a série de artigos recém publicados.

Num tempo de comissões da verdade pipocando no Brasil e em outros países que viveram, há não muito tempo, o horror de ditaduras totalitárias, quando se recomeça a discutir - depois de longo e indiferente silêncio da população civil que mutilou e alienou quase duas gerações – os sinistros eventos do passado, o arbítrio, as torturas de dissidentes e o terrorismo de estado, indica-se ler e reler a pensadora que nunca caminhou com o espírito simplista do tempo.

Heidegger ensinou Arendt a pensar e como pensar embora ele próprio, em determinado instante de sua biografia tenha aderido ao nazismo e portanto sido execrado apesar de seu arrependimento em privado – nunca, por orgulho, em público. “Pensar pode salvar pessoas de opções equivocadas e das catástofres”.

Recomenda-se vivamente.

Quanto a Hannah Arendt, o filme, sua estréia está prevista para o Rio de Janeiro e provavelmente São Paulo para começo de julho deste ano pelo grupo Estação.

É imperdível.

 

*Jornalista, autora.

 

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