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Woody Allen, Velho e Lúcido

 

Lea Maria Aarão Reis

 

Woody Allen ficou velho, mas nunca esteve tão lúcido pelo que se vê em seus bons recentes filmes, da fase européia. Mostra-se cada vez mais cheio de perguntas que não têm respostas, o que é ótimo.

 

Embora venha dizendo cobras e lagartos da velhice, o que se compreende, a sua juventude parece ser eterna até quando vitupera contra ela.

 

“Envelhecer é uma coisa terrível,” ele diz. “Minha vista já não é o que era, perdi um pouco da audição, a comida não tem o mesmo gosto. Não ganhei sabedoria nenhuma e não há nada de bom em envelhecer. Você simplesmente deteriora e morre”.

 

Veja-se Vicky Cristina Barcelona. Um trabalho imperdível na sua filmografia. Embora Allen traduza a sua perplexidade com tudo que nele ocorre - ás vezes até parece que, propositadamente, ele perde o controle dos acontecimentos -, o filme mantém o frescor, a irreverência e o humor elegante. Vicky reflete sobre temas que dão trabalho à massa cinzenta dos que pensam que tudo que está aí, no mundo, hoje, é uma grande bobagem. Ou um dramático equívoco.

 

“A vida é uma confusão muito grande”, disse Allen em entrevista no ano passado, quando filmava O Sonho de Cassandra - outra das grandes confusões cinematográficas armadas por ele. “Existem só alguns oásis extremamente divertidos no meio dessa miragem que é a vida. Há momentos de prazer. Mas, basicamente, a vida é trágica.”

 

É mais ou menos o que Tenessee Williams escreveu, em Glass Menagerie, despindo tolas ilusões. É o que faz Allen, neste filme bancado parcialmente pela prefeitura da Barcelona, que não dormiu no ponto ao oferecer dinheiro para produção e, de quebra, ganhou um cartão postal turístico memorável para a cidade.

 

Em Vicky, Cristina, Barcelona ninguém mata ninguém como nos outros filmes europeus de Woody Allen embora a sua personagem Vicky, uma das duas garotas americanas em férias - fériasque tinham tudo para ser reveladoras, em uma Espanha hipnotizante e à beira do descontrole emocional -, essa Vicky perde suas chances e assassina as próprias emoções, voltando, no fim, para os campos de golfe liofilizados americanos e para a casa magnífica de subúrbio. A Vicky de Allen se mata ao não agarrar a oportunidade de viver a sua “imensa confusão”, vida afora.

 

Cristina é ainda mais dramática. Sabe o que não quer, mas não sabe o que deseja. É o zumbi do filme de Allen. Fotografa a realidade pelas ruas da cidade, mas só consegue se inserir nela quando sente o sabor da transitoriedade. Depois, descarta e segue em frente, buscando sem saber o quê. Cristina lembra a personagem do filme Encontros e Desencontros ( Lost in Translation ), o bonito filme de Sofia Coppola, que lançou Scarlett Johansson fazendo a garota americana em uma monumental ressaca existencial em Tóquio.

No fundo, pode-se ver a construção de Allen de duas vivas mortas em Vicky e em Cristina – uma América morta? – em contraste com a vulcânica Maria Helena de Penélope Cruz – a Europa aos seus olhos? – flertando com a violência da força descontrolada e com a destruição.

 

Muitos são os que escreveram sobre Vicky Cristina Barcelona , sinal de que o filme toca fundo. Fascina o tema do ménage à trois ao modo europeu como último recurso para revitalizar e reequilibrar relações amorosas no limite do inviável. Fascina a celebração do amor delicado das moças construindo o eixo necessário para o sucesso da convivência com o homem. Que, aqui, funciona nada mais do que como referência detonando os acontecimentos. Jávier Bardem compreende o que faz ali.

 

Já entrado na velhice, na casa dos setenta anos, Allen se mostra ocupado agora em destilar mais ainda o simbolismo dos seus personagens. Descascando-os, mostra a sua essência e a substância dos símbolos. O tom de voz do narrador em off é ainda mais didático dos que nos seus mais recentes filmes, mas é o mesmo. É o de quem conta nada mais do que fábulas. Ele apresenta ao espectador esquemas quase matemáticos sustentando as “grandes confusões” armadas pelo autor.

 

Mas é em Cristina que Allen deposita seu alter ego. Ela sabe o que não deseja neste mundo, mas não consegue saber o que quer dele e nele. E quem, honestamente, sabe?

Quanto mais velho, mais sombria e pessimista é a sua “visão da vida e da fé do homem, da condição humana”, como disse quando filmava a grande seqüência da sedução, em Oviedo. Exatamente na mesma época morria Ingmar Bergman, na Suécia, uma perda significativa para Allen pelo que mostra um pequeno e tocante texto que ele escreveu em Oviedo.

 

Cristina é a face da perplexidade de Allen. A expressão do seu rosto, na escada rolante do aeroporto, voltando para casa - a última imagem do filme – não é triste. Mas por ser tão indiferente dá uma grande tristeza.

O fim do filme de Woody Allen me dá muita vontade de chorar. Embora a gente concorde que afinal tudo não passa de uma grande confusão.

 

*Jornalista. Autora de Maturidade , Além da Idade do Lobo e Cada Um Envelhece como Quer (e como pode ) pela Editora Campus/Elsevier

 

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