Os Melhores Filmes De 2012

 

La Maria Aaro Reis *

Dez Melhores Filmes de 2012 da ACCRJ/Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro:

A separação, de Asghar Farhadi

Shame, de Steve McQueen

Argo, de Ben Affleck

A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

Isto não é um filme, de Jafar Panahi e Mojtaba Mirtahmasb

O artista, de Michel Hazanavicies

A música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim

Um alguém apaixonado, de Abbas Kiarostami

Drive, de Nicolas Winding

A febre do rato, de Claudio Assis

Esta é uma relação no mínimo curiosa. Foi elaborada durante a tradicional votação de fim de ano dos críticos da cidade. Para ela valeram só os filmes exibidos em cinemas do Rio de Janeiro durante 2012 e até o dia 18 de dezembro, quando ocorreu a reunião da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Nossa opinião estritamente pessoal, embora sejamos membro da ACCRJ, é o anacronismo do ( hoje) despropositado costume de eleger os melhores filmes da temporada entre os que foram mostrados apenas nas telonas do Rio. O mercado de cinema, como ocorreu com o de música e acontece agora com o de livros, está em franca transição. Surgiram novos equipamentos individuais exibidores de filmes, e com eles a comercialização massiva de filmes em DVDs a preços ultra acessíveis – em geral para alugar nos vídeo clubes. Há a apresentação quase sempre inesperada de filmes novos que acabam estreando nos canais da TV paga - e nunca chegam aos nossos cinemas – assim como a exibição relâmpago de filmes considerados não comerciais - com carreira às vezes surpreendente -, em um único cinema pequeno, de bairro, por curto espaço de tempo. E sem considerar, por ser ilegal, a efervescente pirataria reinante na rede - nos últimos meses esfriada por conta de uma fiscalização rigorosa que torna mais difícil a atividade dos piratas. Quem diria? Filme com estreia obrigatória em cinema está se tornando coisa do passado. E as relações de melhores do ano que apenas levam isto em conta podem ser incompletas para não dizer injustas.

Dois exemplos recentes e emblemáticos: no mesmo dia em que o último Festival do Rio promovia sessões do excelente filme inglês Mais um Ano ( Another day, another year), um canal de TV a cabo exibia a obra de Mike Leigh, com todas chances de entrar numa seleção de melhores da temporada. Ficou de fora da relação. Outro: o filme O Ultraje (disponível nas vídeo locadoras), do japonês Takeshi Kitano, dos mais importantes diretores em atividade, depois de dez anos sem filmar estreou mais uma quase obra prima sobre a yakuza, o seu tema recorrente. É provável que tivesse sido cogitado para entrar na lista de dez mais.

E mais: Fausto, que completa a célebre tetralogia do ucraniano Alexandr Sokurov foi exibido no Rio em um só cinema, por duas semanas. Muitos críticos não viram o belo filme que já nasce clássico. Ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado e ... ficou de fora! Assim como o russo Minha Felicidade, de Sergei Loznitza. Seguiu pelo mesmo caminho: o mesmo exibidor de Fausto russo se interessou em mostrá-lo, mas permaneceu em cartaz em apenas um cinema. Foi um dos mais contundentes filmes que baixaram no Rio em 2012.

A lista deste ano da ACCRJ é interessante. A safra cinematográfica é bem superior à de 2011. Há dois filmes iranianos – um dos quais, A Separação, escolhido o melhor da temporada. É um bom filme. Ritmo ágil ao modo ocidental, roteiro bem amarrado, trata da separação de um casal, em Teerã: ela quer ir embora do país com a filha adolescente em busca de “melhores oportunidades”. O homem deve ficar porque é quem cuida do velho pai com Alzheimer.

O outro, Isto não é um filme, é tocante. O diretor Jafar Panahi, com estreitos laços de amizade na Europa onde goza de grande prestígio, e autor do célebre filme O balão branco, ( precursor do cinema persa no mercado internacional, doze anos atrás) encontra-se em prisão política domiciliar provisória no seu apartamento, na capital, ameaçado de cumprir pena em regime fechado durante seis anos, e proibido de filmar por 20 anos assim como de deixar o Irã. Nesta situação dramática, Panahi ainda encontrou energia de ser filmado por um corajoso companheiro cinegrafista, Mojtaba Mirtahmasb, na sua casa/prisão, mostrando como seria o seu próximo filme. Há um instante precioso, neste filme (contrabandeado para o Festival de Cannes do ano passado dentro de um pen drive) que vale todo ele. Diante da câmera, Panahi para durante algum tempo e baixa a cabeça sem ânimo, antes de continuar. Inesquecível.

No universo da crítica de filmes, no mundo inteiro, atualmente, discute-se o vigor do cinema político produzido em toda parte. A política ocupa, hoje, um fascinante quadro na realidade, no imaginário e na vontade de conhecimento de quase todos. A origem: as revoluções, as rebeliões, as intervenções sutis praticadas pelos mais fortes que destroem países inteiros, milenares; as guerras, os sofisticados jogos de poder se desenrolando aos olhos do mundo, lances emocionantes espelhados no cotidiano dos noticiários. Uma fonte irresistível para o cinema. Tanto que um dos filmes mais cotados para o Oscar deste ano é o de Kathryn Bigelow sobre o assassinato de Osama bin Laden, A hora mais escura.

Pois na lista carioca o cinema político foi contemplado de passagem, com os dois filmes iranianos e mais Argo, uma produção americana recheada de clichês, de Ben Affleck.

Ficaram de fora obras imperdíveis do gênero. Algumas ainda estão em cartaz neste começo de ano novo, São para os que não se alimentam apenas de circo.

O surpreendente O Homem da Máfia; dois argentinos excelentes - Infância Clandestina e Elefante branco -, o já lembrado Minha Felicidade, os franceses A Rebelião e As neves do Kilimandjaro (assunto: mais uma vez as lutas sindicais, outro tema recorrente do diretor franco-armênio Robert Guédiguian).

E dois ingleses sólidos em suas convicções: Rota Irlandesa (tema importante: a contratação de soldados mercenários por parte de perigosas empresas bilionárias agindo na sombra da indústria de armamento e de governos cujo orçamento militar não comporta mais incluir novos recrutamentos para exércitos regulares) e o emocionante O porto – outro belo filme – que trata da imigração ilegal na Europa.

Dois filmes brasileiros. Um, não vimos, A febre do rato, do diretor pernambucano Claudio Assis. É o cineasta premiado lá fora com Amarelo Manga e Baixio das Bestas. Recomendamos conhecer seus filmes. É um excelente cineasta de fora do eixo Rio/São Paulo. Não sofre a nefasta influência da televisão e das telenovelas.

O outro nacional é uma aula de montagem e de sensibilidade cinematográfica, do mestre Nelson Pereira dos Santos (co-diretora, Dora Jobim): A música segundo Tom Jobim. É imperdível. Sem uma única palavra, sem depoimentos de “especialistas “ – poucos ainda os aguentam -, Nelson traz a força e a profundidade da obra de Tom apenas mostrando as composições do maestro, em quase duas horas de filme que não cansam. Ele segue à risca o que Tom sempre disse: “Só a linguagem musical basta “.

Há filmes da relação Melhores do Ano que são francamente de entretenimento. Nada contra, pelo contrário – quando é bom e original. A Invenção de Hugo Cabret, de mais um mestre, Scorsese, é outra lição de como usar os recursos das três dimensões de modo funcional e sem gratuidade.

Se bem que outro cineasta, o budista Ang Lee, em cartaz neste início de 2013, nas telonas, também usa o 3-D para fazer pura poesia e um filme simplesmente genial. Extraordinária, a beleza que cria. História eletrizante – aliás, duas: a primeira flui através do filme; a segunda se superpõe, quase como um enigma - e com roteiro sensacional, As Aventuras de Pi, na minha opinião, já é um dos melhores do novo ano. É espetacular.

O Artista, filme mudo, é simpático, conquista e conta com um casal de atores franceses encantador. Jean Dujardin e Bérénice Bejo tiveram as carreiras alavancadas com justa razão. A chave de O Artista é a nostalgia.

A história de um viciado em sexo (protagonista, o ator queridinho do momento, Michael Fassbander) contada em Shame resultou em mais um filme correto, sem referência marcante, do gênero cinema-chique-elegante-produzido-em-Manhattan. A presença da maravilhosa atriz Carey Mulligan fazendo a irmã vale o filme. Cantando na boate, numa sequência de tal tristeza que fere o coração da gente ela lembra outra passagem lancinante do cinema, a de Isabella Rossellini cantando Veludo Azul, ícone da melancolia de Bobby Vinton, no filme de David Lynch Mulligan é um imenso talento da geração de atrizes jovens americanas.

E por fim, dois filmes intrigantes, excelentes: Um alguém apaixonado, que o iraniano (novamente os persas!) Abbas Kiarostami (mestre de Panahi ), o mais conhecido do cinema de seu país, rodou em Tóquio já que não tem permissão do governo de filmar no Irã. O ator protagonista, o velho professor apaixonado pela menina, era um figurante no cinema nipônico. Foi alçado por Kiarostami ao papel central. Chama-se Tadashi Okuno e ninguém, antes, ouvira falar em seu nome. Quando as filmagens terminaram, choveram propostas para Okuno fazer outros filmes em papeis importantes. Ele recusou gentilmente. Diz preferir continuar figurante. “É a própria definição do budismo “, disse, na ocasião, o persa.

O segundo é Drive, com outro ator jovem de Hollywood de imenso talento: Ryan Gosling. O autor é dinamarquês, ganhou Cannes em 2012 como melhor diretor. Seu bom gosto e seu olho se revelam por ter escolhido, também, Carey Mulligan para contracenar com Gosling. O resultado das cenas em que os dois trabalham juntos é um show de sofisticação, sutilezas, delicadeza de desejos e intenções ocultas. O filme é um noir baseado num livro de James Sallis.

Esperamos que estas breves anotações sirvam como uma espécie de guia satisfatório para saborear estes filmes, uns melhores, outros piores, mas todos valendo assistir. Os da relação oficial, no Rio de Janeiro, de Melhores de 2012*, e os que estão chegando, neste verão, e já se posicionando para Melhores de 2013.

Assim, parodiamos Tom: só a linguagem cinematográfica basta.

 

* Jornalista e escritora.

* * A mostra dos Melhores Filmes de 2012 será apresentada no CCBB – Centro Cultural banco do Brasil em fevereiro.

 

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